'A pessoa que eu conhecia deixou de existir', diz ator que trabalhou por anos com Marco Furlan
Kiko Pissolato dividiu trabalhos artísticos com Marco Furlan e falou sobre relação com ator acusado de estupro Reprodução/Instagram Após a prisão de Marc...
Kiko Pissolato dividiu trabalhos artísticos com Marco Furlan e falou sobre relação com ator acusado de estupro Reprodução/Instagram Após a prisão de Marco Furlan, acusado de estuprar uma criança de 5 anos, o ator Kiko Pissolato se manifestou nas redes sociais sobre o caso. Segundo relato publicado em seu perfil no Instagram, os dois trabalharam juntos diversas vezes por uma década e a notícia sobre o caso foi um choque para ele. Em entrevista exclusiva ao g1, Kiko destacou que não era tão próximo de Marco, mas dividiu inúmeros momentos de convivência com ele ao longo dos anos. A convivência profissional, no entanto, nunca revelou qualquer comportamento que permitisse imaginar uma violência dessa gravidade. No relato, Pissolato conta que os dois se conheceram em 2007, durante a montagem de "Tristão e Isolda", no Teatro do SESI, em São Paulo, sob direção de Vladimir Capella. Depois, voltaram a trabalhar juntos em "O Colecionador de Crepúsculos" e "O Meu Amigo Pintor". Segundo o ator, o último encontro profissional entre eles ocorreu por volta de 2017. "Eu estava no teatro, montando o cenário, quando minha esposa me encaminhou as primeiras notícias. Naquele momento, ainda eram informações iniciais, mas já foi o suficiente para me deixar completamente em choque", afirmou. À medida que buscou mais informações sobre o caso, diz que a sensação se intensificou. "Primeiro veio o espanto. Depois, uma sensação parecida com um luto. Não porque alguém tivesse morrido, mas porque a imagem que eu tinha daquela pessoa deixou de existir." Kiko reforça que a relação entre os dois sempre foi predominantemente profissional, embora tenham mantido contato ao longo dos anos em estreias, eventos e encontros com amigos em comum. "Não éramos amigos íntimos, nem tínhamos uma convivência cotidiana, mas havia uma relação cordial construída ao longo de muitos anos." Ao ser questionado se, olhando em retrospecto, identificava algum comportamento que hoje considerasse um sinal de alerta, o ator afirmou que não. "É inevitável que, depois de uma notícia como essa, a gente volte mentalmente à convivência e tente encontrar algum sinal que pudesse explicar o que aconteceu. Eu também fiz esse exercício. Mas, sendo muito honesto, eu não consigo dizer que havia comportamentos que indicassem um crime dessa natureza", destaca. Ele pondera que algumas atitudes lhe parecem hoje manifestações de um machismo comum na sociedade, mas ressalta que isso não pode ser confundido com a prática do crime investigado. "O que esse caso fez foi me levar a refletir sobre algo mais amplo: a forma como nós, homens, somos educados." Para ele, a principal lição deixada pelo episódio é justamente a dificuldade de identificar esse tipo de violência. "O que esse episódio me ensinou é que crimes como esse não podem ser reduzidos à ideia de que 'o monstro tem um rosto específico'. Muitas vezes, quem comete uma violência grave consegue manter uma aparência de normalidade. Isso torna tudo ainda mais perturbador." 'Não conversei com ele e também não pretendo conversar' O ator afirmou que não procurou Marco Furlan após as acusações e que também não pretende fazê-lo. "Eu não conversei com ele e também não pretendo conversar. A sensação que tive foi a de que a pessoa que eu conhecia deixou de existir. Diante da gravidade do que aconteceu, eu realmente não vejo o que haveria para ser dito", afirma. "Meu primeiro impulso foi o de muitas pessoas: parar de seguir, apagar fotos, tentar me afastar de qualquer vínculo. Existe um sentimento de choque, de impotência e até de vergonha por pensar que alguém com quem você conviveu durante tantos anos pudesse esconder algo tão grave sem que você jamais imaginasse." Debate sobre masculinidade Na avaliação do ator, casos como esse atingem toda a sociedade, mas ganham um peso adicional quando envolvem alguém conhecido no meio artístico. Ele afirma, contudo, que não considera correto transformar um caso individual em um retrato da categoria profissional. "O fato de uma pessoa ser ator não explica quem ela é, assim como sua profissão não a torna melhor nem pior." O artista defende que a comunidade artística se posicione em defesa das vítimas e da proteção de crianças, além de ampliar o debate sobre masculinidade, machismo e prevenção da violência. Ele também acredita que pessoas públicas têm responsabilidade adicional ao tratar desses temas. "Hoje elas têm alcance. E alcance é responsabilidade." Segundo o ator, o vídeo publicado por ele nas redes sociais não teve como objetivo comentar especificamente o caso de Marco Furlan, mas estimular uma reflexão mais ampla. "No fim das contas, eu não gravei aquele vídeo para falar sobre ele. Gravei porque acredito que, diante de uma tragédia como essa, a pergunta mais importante não é 'como isso aconteceu com aquela pessoa?', mas 'o que nós podemos fazer para que isso aconteça cada vez menos?' É essa conversa que eu acho que realmente importa." Agora no g1