Inpe vai receber R$ 147,6 milhões para desenvolvimento de inteligência artificial contra o desmatamento
Sede do Inpe, em São José dos Campos Pedro Melo/TV Vanguarda O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), responsável pelos números oficiais de desma...
Sede do Inpe, em São José dos Campos Pedro Melo/TV Vanguarda O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), responsável pelos números oficiais de desmatamento no Brasil, vai usar inteligência artificial para acelerar a detecção da perda de vegetação nativa e apontar, com antecedência, as áreas mais ameaçadas por derrubada, degradação e fogo. O projeto, batizado de SIM-Biomas, vai receber R$ 147,6 milhões do Fundo Amazônia. Foi anunciado nesta sexta-feira (16), no mesmo dia em que o governo federal divulgou os dados do desmatamento da Amazônia, que teve o menor índice desde 1988. Referência nacional e internacional, o Inpe mede por satélite a perda de vegetação nos biomas do país: seus dados formam a taxa oficial de desmatamento, orientam a fiscalização ambiental com alertas quase diários e alimentam os inventários de emissões que o Brasil apresenta no Acordo de Paris. E o que vai ser feito com a tecnologia? Hoje, a taxa anual e os alertas vêm de sistemas separados: o Prodes, mais preciso, e o Deter, mais rápido. A principal mudança prevista é uni-los, para que a informação chegue com a velocidade de um e o detalhe do outro. Além disso: Os alertas também vão chegar à Caatinga, à Mata Atlântica e ao Pampa, que hoje ficam fora do monitoramento diário. O mapeamento de áreas queimadas, que fora do Cerrado ainda trabalha com quadrados de 1 quilômetro de lado, passará a enxergar áreas de 30 metros em todo o país. Isso permite saber com precisão por onde o fogo passou e qual extensão atingiu. Além de registrar o que já foi destruído, o Inpe quer indicar onde o risco é maior nas semanas e meses seguintes, cruzando dados de vegetação com informações sobre posse de terra, economia e clima. Como a IA deve encurtar o caminho entre o satélite e a fiscalização Satélites fotografam o território brasileiro o tempo todo, mas a imagem, por si só, não diz onde houve corte raso, onde a floresta foi degradada ou onde a vegetação está se recuperando. Alguém, ou algum sistema, precisa ler cada uma delas. É nessa etapa que entram as técnicas de aprendizado de máquina. Treinados com milhares de exemplos já classificados pelos pesquisadores, os algoritmos aprendem a reconhecer o padrão de uma clareira recente, de uma mata que perdeu parte das árvores ou de uma cicatriz deixada pelo fogo. O projeto prevê automatizar a análise das imagens e a geração dos alertas. O ganho esperado é de tempo. Hoje, o Prodes produz um número por ano. Com a integração, o Inpe pretende gerar dados com mais frequência, inclusive dentro do mesmo ano, reduzindo o intervalo entre a mudança no terreno e a chegada da informação aos órgãos de controle ambiental. A troca de resolução nos mapas de fogo ilustra o salto de detalhe. Um quadrado de 1 km de lado equivale a cerca de 140 campos de futebol; com 30 metros, cada ponto da imagem passa a representar uma área menor que um campo. A informação é usada no planejamento de prevenção e combate a incêndios. Segundo o diretor do Inpe, Antônio Miguel Vieira Monteiro, os softwares e métodos desenvolvidos serão abertos, para que possam ser replicados e verificados por outras instituições. O que o projeto prevê em cada frente Prodes e Deter integrados: automação da análise de imagens e da detecção de alertas, com produção de dados do Prodes mais de uma vez por ano. Alertas em todos os biomas: o Deter, hoje restrito a Amazônia, Cerrado e Pantanal, será ampliado para Caatinga, Mata Atlântica e Pampa. Mapas de queimadas mais detalhados: resolução passa de 1 km para 30 metros em todos os biomas, com produção sistemática de mapas e reconstrução de séries históricas pela nova metodologia. Previsão de risco: um Subsistema de Inteligência Territorial vai cruzar dados de desmatamento, degradação e recuperação com informações fundiárias, socioeconômicas e climáticas para gerar indicadores de risco de curto prazo. As análises poderão ser feitas por bacia hidrográfica ou terra indígena, e ferramentas de cenários vão simular trajetórias de longo prazo sob diferentes condições econômicas, climáticas e de políticas públicas. Medição de gases na Amazônia: sobrevoos vão coletar amostras do ar para medir dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄), óxido nitroso (N₂O) e monóxido de carbono (CO). Os resultados serão comparados com as estimativas calculadas a partir das mudanças na vegetação, para reduzir incertezas. Também estão previstos mapas atualizados de biomassa e carbono da Amazônia e do Cerrado, que vão alimentar os inventários de emissões e os relatórios do Brasil no Acordo de Paris. Nova plataforma pública: o TerraBrasilis++ vai reunir mapas, alertas e indicadores, com uma Sala de Situação ampliada e uma nova Sala de Cenários para projeções. O projeto inclui ainda a ampliação da capacidade de processamento e armazenamento do Inpe e melhorias no Brazil Data Cube, base de imagens de satélite do instituto. Se as entregas saírem no prazo, o país chega ao fim da década com um sistema capaz de medir a perda de vegetação em todos os biomas, quase em tempo real, e de apontar onde ela tende a acontecer. Transformar esse alerta em ação, porém, continua dependendo de quem fiscaliza em campo. Como vai funcionar o investimento Na última década, o Inpe viu seu orçamento ser reduzido. Em 2021, recebeu R$ 79 milhões, o menor valor da série histórica, iniciada em 2006, e chegou a correr o risco de um apagão de dados por falta de verba para o pagamento de contas básicas. Dois anos antes, em 2019, o instituto havia sido alvo de pressão pública do então presidente Jair Bolsonaro, que classificou como fraudulentos os dados sobre o desmatamento da Amazônia, à época em alta. Bolsonaro terminou demitindo o então diretor, Ricardo Galvão, uma intervenção nunca antes vista na história da instituição. Sede do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Reprodução/TV Vanguarda Desde então, o Inpe vem buscando a recomposição do orçamento para não só manter a estrutura, mas ampliar tecnologias. A recomposição começou em 2023, quando a verba subiu para R$ 129 milhões. Nos anos seguintes, oscilou: foi a R$ 120 milhões em 2024 e a R$ 102 milhões em 2025. O valor anunciado agora não entra no orçamento regular do Inpe. Trata-se de um apoio não reembolsável do Fundo Amazônia, mecanismo criado há 18 anos para financiar ações de combate ao desmatamento e de uso sustentável da floresta com recursos de doações internacionais. O fundo é gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em coordenação com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Hoje tem nove doadores: Noruega, Alemanha, Reino Unido, União Europeia, Estados Unidos, Suíça, Dinamarca, Irlanda e Japão. Desde a criação, somou R$ 5,3 bilhões em doações e aprovou 159 projetos, com presença em três de cada quatro municípios da Amazônia Legal.