Ocos de umburana funcionam como refúgio para até 98 anfíbios durante a seca na Caatinga, revela estudo
Umburana (Amburana cearensis) Jaqueiuto Silva Um estudo publicado na revista científica Ecosphere, da Ecological Society of America, revelou uma função até ...
Umburana (Amburana cearensis) Jaqueiuto Silva Um estudo publicado na revista científica Ecosphere, da Ecological Society of America, revelou uma função até então pouco conhecida das umburanas na Caatinga: seus ocos funcionam como verdadeiros refúgios para anfíbios durante a estação seca. Os pesquisadores encontraram 475 indivíduos de seis espécies diferentes reunidos dentro das cavidades das árvores. Em um único oco, chegaram a ser registrados 98 animais. A descoberta ajuda a responder uma pergunta que intrigava os cientistas: para onde vão os anfíbios quando as chuvas somem e a Caatinga atinge o auge da seca. Já era sabido que parte deles se enterra no solo para sobreviver ao período mais árido, mas o novo estudo mostra que os ocos das umburanas também têm papel decisivo nessa sobrevivência. De acordo com a pesquisa, o interior dessas cavidades apresenta condições bem diferentes das encontradas do lado de fora: a temperatura interna é, em média, 5,43°C mais baixa, enquanto a umidade chega a ser 15% maior. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Um achado que veio de uma planilha A descoberta começou de forma quase acidental, durante trabalhos de consultoria em atividades de resgate de fauna que antecediam a supressão de vegetação para a instalação de empreendimentos na região. "A percepção inicial veio quando recebi o material dos biólogos de campo, que ficam no resgate de fauna. Eles me mandavam os dados na planilha e o que chamou atenção foi a quantidade de indivíduos por oco. Percebi que tinha muitos indivíduos para um registro só, foi quando entrei em contato com quem estava em campo perguntando de onde vinha aquilo", conta o biólogo Jaqueiuto Silva, um dos autores do estudo. "A partir do terceiro registro foi que chamou mais atenção ainda, por conta dessa relação sempre aparecer em árvores de umburana." A perereca-de-capacete (Corythomantis greeningi) foi uma das espécies encontradas nos ocos sandres/iNaturalist O fenômeno se repetiu em mais de um empreendimento, e chamou atenção também pela diversidade de espécies encontradas dividindo o mesmo espaço. "As espécies são muito diferentes na biologia. Tinha perereca, que é de um grupo mais arborícola, e tinha sapo, que não são conhecidos por escalar, é isso que chama atenção", explica o pesquisador. Mais intrigante ainda: entre as espécies reunidas nos ocos, há uma que secreta pela pele uma substância tóxica capaz de matar outras espécies quando entram em contato. "A hipótese que a gente tem é que, quando estão nessa situação que precisam se agregar, elas relaxam, deixam de ser territorialistas e passam a ser mais sensíveis à cooperação", afirma Silva. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: ENCONTRO COM A ONÇA-PINTADA: Novas diretrizes estabelecem níveis de risco e como agir BIRDWATCHING: Aplicativo reúne mais de 900 aves do Sudeste e ajuda na observação em campo ONÇA-PINTADA: Conheça a Manchita, oncinha que já cruza fronteiras entre Brasil e Argentina Estrutura-chave, mas cada vez mais rara Segundo o pesquisador, a particularidade da umburana está diretamente ligada à idade da árvore: quanto mais velha a planta, maior o oco que ela forma naturalmente em seu tronco. "No trabalho, a gente chama isso de estrutura-chave", diz. Cumaru (Commiphora leptophloeos) Jaqueiuto Silva Essa mesma característica, porém, coloca a espécie em rota de colisão com outro interesse: plantas adultas, justamente as que formam os maiores ocos, são também as mais procuradas para extração de madeira. "Acaba que tem esse conflito entre a importância delas para a natureza, disponibilizando essas estruturas-chave, que são raras, e a procura pela madeira. Manter essas árvores com idade suficiente para formar ocos é uma das chamadas importantes do trabalho", pontua o biólogo. A pesquisa levou cerca de três anos entre os primeiros registros em campo e a publicação do artigo, incluindo o tempo necessário para o encerramento da obra e a liberação para uso dos dados coletados. Recomendação para empreendimentos na Caatinga Para o pesquisador, o principal alerta do estudo é sobre a época do ano em que ocorrem as obras de supressão de vegetação. "Se o manejo é feito na seca, esses indivíduos vão estar estivando, adormecidos dentro dessas árvores, que às vezes são cortadas inteiras, e esses animais vão junto. Depois aquela vegetação é queimada, principalmente na Caatinga, que é o perfil da região de onde vêm os dados desse estudo, e acaba que esses animais vão sendo queimados junto", alerta. A recomendação da equipe é que, sempre que possível, novos empreendimentos evitem a derrubada de mata nativa. "Se puder evitar a derrubada de mata nativa, que é uma das grandes questões que a gente aponta nesse estudo, priorizar áreas que já tiveram a mata suprimida, no lugar de derrubar árvores que tenham mata primária", conclui Silva. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente