Pratos menores e mais proteína: como canetas emagrecedoras e 'onda fitness' têm moldado cardápios de restaurantes
Como canetas emagrecedoras e 'onda fitness' têm moldado cardápios de restaurantes O avanço do uso das chamadas canetas emagrecedoras, medicações à base de...
Como canetas emagrecedoras e 'onda fitness' têm moldado cardápios de restaurantes O avanço do uso das chamadas canetas emagrecedoras, medicações à base de tirzepatida e semaglutida, conhecidas como Mounjaro e Ozempic, somado à “onda fitness”, começou a mudar a forma como os restaurantes pensam seus cardápios. Em Campinas (SP), chefs e empreendedores têm adaptado receitas para oferecer porções menores, mais proteínas magras e menos carboidratos pesados, atendendo a um público que busca refeições funcionais sem abrir mão da experiência gastronômica. O g1 conversou com alguns estabelecimentos da cidade. Para eles, essa transformação ocorre, principalmente, pela redução na quantidade ingerida pelos clientes, pois há mais gente deixando comida no prato, e a busca crescente por opções saudáveis no cardápio. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp Cardápio adaptado para quem usa canetas Chef Mauro Mason acredita que o salmão com legumes será o carro-chefe dos novos pratos Divulgação À frente do restaurante Benedito, que completa 10 anos neste mês de março, o chef executivo Mauro Mason prepara novidades específicas para esse público depois de notar mudanças no comportamento dos clientes. “A gente percebeu duas coisas: diminuiu o número de clientes e o cliente deixa mais comida no prato. O que a gente está planejando é ter esses pratos, mas com menor quantidade”, explica. Entre as novidades estão o salmão com legumes e carboidratos simples, e uma opção vegana de húmus de beterraba com falafel. Segundo Mason, cerca de 15% das receitas de seu cardápio são voltadas para proteínas e vegetais, sem glúten e com baixo ou zero carboidrato. Para facilitar a escolha, o menu eletrônico agora trará ícones que identificam pratos voltados a usuários dos medicamentos. O chef explica que sua experiência pessoal também influenciou o processo. A mãe dele é diabética, um irmão usa Mounjaro e ele próprio fez tratamento com Ozempic sob acompanhamento de um endocrinologista. “Pesquiso muito alimentação por conta do diabetes da minha mãe e acabei entendendo um pouco sobre o funcionamento, sobre por que comer proteína magra e carboidrato simples”, comenta. Com os lançamentos previstos ainda em março, junto ao aniversário do restaurante, Mason comenta as expectativas sobre quais receitas devem se destacar de acordo com o perfil dos clientes. “O que eu acho que vai vender mais assim, que é uma proteína limpa, a gente vai fazer um filé de salmão com legumes, e nesses legumes vai ter um pouquinho de batata, que é o carboidrato, mas ele basicamente vai ser o carboidrato dos legumes, que tem fibra, que é bom para baixar o índice glicêmico, e uma proteína boa. Esse prato acho que vai ser o carro-chefe do negócio”, finaliza. Pratos veganos e bebidas proteicas Café gelado e matcha proteicos, com 23 g de proteína à base de whey, criados pela cafeteria Saints Laundry. Divulgação Na cafeteria Saint's Laundry, Pedro Santana segue outro caminho. Em vez de reformular todo o cardápio, sua aposta está em criações pontuais que dialogam com o público wellness. 🌿 O termo em inglês dá nome ao movimento que incentiva o cuidado integral com o corpo e a mente, promovendo hábitos saudáveis. “A gente entendeu que, além de ser um público potencial para nós, havia a oportunidade de desenvolver criações dentro desse universo wellness. Surgiu muito mais como uma chance de explorar o lado criativo da equipe para atender esse novo público que estava chegando” Para apoiar o wellness e explorar esse público de forma diferenciada, a cafeteria criou bebidas que contêm 23 g de proteína à base de whey protein, como o matcha e o café gelado. “Através da criatividade e do desenvolvimento, foi assim que a gente começou a ter coisas mais saudáveis”. “O mesmo movimento foi para a questão dos pratos veganos. Não é o nosso público-alvo, mas a gente tem dois pratos que a gente conseguiu explorar e criar algo que transmitisse a identidade da ciência para esse público”, diz. Apesar de perceber a onda fitness, o proprietário não pretende expandir o cardápio com outras bebidas do segmento. “Vou ser sincero, a gente pensa em manter, porque hoje a gente tem 32 bebidas no cardápio, então estou falando de 20% do meu cardápio já destinado para esse tipo de propósito”. “O que a gente pretende é não ficar fixo com esses itens, então, ir sempre modificando e sempre trocando para ter novidade. Agora, isso tomar mais espaço no meu cardápio, para a gente, eu não vejo que faz sentido hoje”, conta. LEIA TAMBÉM: Atendimentos por pancreatite na região de Campinas mais que triplicam e batem recorde em 2025 'Saudabilidade' nos restaurantes Cardápio oferecido pelo Restaurante Bellini, em Campinas, tem opções saudáveis Reprodução/Redes sociais Eduardo Porto, que atua à frente da área comercial e de marketing da rede Vitória Hotéis e seus respectivos restaurantes, conta que percebeu uma mudança de hábito mais saudável entre os clientes. Segundo ele, atualmente muitos contratam cardápios com opções mais leves e equilibradas. “Eles fecham coffee break e almoço, e sempre pedem coisas mais saudáveis. A grande maioria das empresas está nessa tendência agora”, afirmou. Ele também destacou que vê com bons olhos o aumento das atividades físicas e da busca por uma vida mais saudável, especialmente entre os jovens. Para ele, é importante que os estabelecimentos reconheçam esse público. “Eu acho muito bacana, porque realmente o mindset das pessoas depois da pandemia mudou. Principalmente a geração Z, que está trocando a noite pelo dia, indo menos para baladas e acordando cedo para praticar esportes. Isso é muito positivo, e os restaurantes estão se adaptando para oferecer esse tipo de opção”, completou. Entrada de folhas com figo grelhado, queijo de cabra empanado em amêndoas do Bellini Ristorante, em Campinas Divulgação Para ele, é muito importante oferecer opções que atendam diferentes dietas, como vegetarianas, veganas, sem lactose e sem glúten. No entanto, diz que é preciso ter cuidado na hora de especificar pratos relacionados ao uso de medicamentos para que a opção não soe como incentivo. "A gente prefere ir na linha do saudável, faz bem para a saúde, low carb, sem glúten, sem lactose. Eu não posso pegar um estabelecimento meu e incentivar esse uso. Eu incentivo as pessoas a serem mais saudáveis, mais determinadas e a emagrecer como tem que ser feito”, destacou. Mudança de mercado ou tendência passageira? A mudança no comportamento dos clientes também começa a chamar atenção de entidades do setor. André Mandetta, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) há dois anos e com mais de 12 anos de experiência no segmento, afirma que existe, de fato, uma mudança nos hábitos alimentares. Porém, ele a atribui a outro comportamento crescente: o menor consumo de álcool. Segundo ele, se uma pessoa não está bebendo ou está bebendo menos, ela também passa a se alimentar de uma forma mais adequada. “Essa mudança de hábito alimentar vem acompanhada da diminuição do consumo de bebida alcoólica. À medida que as grandes companhias anunciam redução no consumo, isso também reflete na alimentação”, explicou. Apesar disso, Mandetta concorda que o uso das chamadas “canetas emagrecedoras” também está influenciando esse cenário, já que reduzem o apetite e, consequentemente, o consumo nos restaurantes. “Parece que está todo mundo usando. Realmente diminui a vontade de comer. Em vez de consumir dois pratos, um casal consome apenas um. São vários fatores que influenciam, e o uso da caneta talvez até mais do que a mudança de hábito alimentar”, comentou. Para ele, essa transformação não é apenas uma tendência passageira, mas sim o início de uma mudança concreta no setor alimentício. “Eu acho que veio para ficar. Tudo leva a crer que teremos uma geração mais atenta à alimentação. Mas, como ainda é muito recente, não existem dados oficiais ou grandes estudos. Tudo ainda está no campo do achismo”, disse. Desafio para os restaurantes Mandetta destacou que a principal dificuldade estará nos restaurantes mais tradicionais, que correm o risco de não acompanhar a transição do mercado. Ele comparou a discussão sobre pratos adaptados para usuários de medicamentos à chamada “lei do prato bariátrico” (Lei 16.270/2016, em SP). A legislação obrigava restaurantes a oferecer meia porção ou descontos para pessoas que haviam feito cirurgia bariátrica, que também provoca alterações no apetite e no volume de comida a ser ingerida. A diferença é que é difícil identificar quem faz uso dos remédios. A solução, segundo ele, seria oferecer pratos com menor quantidade de comida e preço reduzido, sem necessariamente criar cardápios específicos. “É uma opção para servir comida em menor quantidade e a pessoa pagar menos. Isso já existe, não é difícil de fazer. É só adequar a quantidade e reduzir o preço”, explicou. Por fim, Mandetta reforçou que o equilíbrio é essencial. “Eu acho que nada em excesso faz bem. Não tem problema você comer sua parmegiana ou sua picanha, desde que sem exagero”, finalizou. Como as canetas agem no organismo? Mulher aplica caneta emagrecedora no abdômen Reprodução/TV Globo A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, é aplicada semanalmente e promove perdas de peso expressivas, acima de 20% em cerca de 36 semanas, segundo estudos. Ela atua no controle da glicose e na regulação da fome, aumentando a sensação de saciedade. A substância imita dois hormônios naturais: GIP: estimula a liberação de insulina, reduz glicose no sangue e diminui a fome. GLP-1: retarda o esvaziamento do estômago e aumenta a saciedade. Pesquisas mostram desempenho superior em perda de peso e controle da glicemia em comparação a outros medicamentos da mesma classe. Já a semaglutida e liraglutida são usadas em injeções para diabetes tipo 2 e obesidade, com redução média de 6% do peso em 12 semanas. A liraglutida é diária; a semaglutida, semanal (ou oral no caso do Rybelsus). Elas imitam o GLP-1, hormônio intestinal que age no cérebro para controlar a fome. Os medicamentos resistem à degradação enzimática natural, prolongando a saciedade e diminuindo o apetite. *Estagiária sob supervisão de Yasmin Castro. VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias da região no g1 Campinas.